Nesta divertida resenha, o escritor e arte-educador Chico dos Bonecos oferece ao leitor um aperitivo ao comentar o livro Às duras penas - Uma aventura no Reino dos Trava-Línguas, texto de Paulo Netho com ilustrações de Camila Ghendov.
Às duras penas - Uma aventura no Reino dos Trava-línguas, de Paulo Netho, é uma história encantadora – misteriosa como a própria infância.
Para começo de conversa, e para a conversa começar, o autor, no primeiríssimo parágrafo, apresenta o nobre Senhor Domingos Pinto Colchão.
Logo em seguida, no segundíssimo parágrafo, o autor anuncia o sumiço do Domingos Pinto Coclhão.
Conclusão: já na primeira página, o leitor fica perdidíssimo...
Para o conforto do leitor, o narrador, generoso, revela que esta história do Domingos é, na verdade verdadeira, é a história da sua procura, a investigação de seus passos. Pegadas na areia? Digitais na geladeira? Sola do tênis na parede? Não, os rastros deixados por este frangote são feitos, apenas, de palavras...
O narrador, já com ares de personagem bisbilhoteiro, inicia a sua jornada circuncisfláutica atrás daquele que seria a personagem principal da história.
Então, o narrador, com ares e dares de personagem, com direito a dialogar diretamente com as outras personagens, inicia uma vasta colheita de pistas no estilo disse-que-me-disse:
“Lá, cada um dizia o que bem achava sobre o paradeiro do frango (...)”
“(...) imagino que ele (...)”
“(...) um engraxate que tinha ouvido quando alguém berrou com o Domingos (...) o engraxate ainda nos contou”
“(...) Consuelo Elo, que me contou (...)”
De repente, de rompante, o narrador-personagem, curiosíssimo, resolve abandonar a investigação – mas apenas pelo breve espaço de tempo:
“Enquanto isso, do outro lado do Reino (...)”
E logo-logo retornamos à vasta colheita:
“Dizem que (...)”
“Foi aí que ele conheceu (...)”
Quando, finalmente, felizmente, todas as informações indicam que o Senhor Domingos Pinto Colchão conseguiu sair do Reino dos Trava-línguas... O que acontece? Ficamos sabendo, apenas, o que o frangote aprendeu.
Apenas?
A duras penas, nós, que estamos do lado de cá do papel, aprendemos que a personagem principal estava presente na história o tempo inteirinho, bem ali, debaixo do nosso nariz de leitores: o Pinto Pelado são as palavras em estado de literatura, em ebulição lúdica, em efervescência comunicativa.
“E assim termina esta história: entrou pelo pé do pinto, saiu pelo pé do pato. Quem quiser que eu conte outra que se vire e conte quatro...”
Francisco Marques Vírgula Chico dos Bonecos
(Diretamente do Reino dos Trava-línguas)
