Há mais de 40 anos — desde que o futebol deixou de ser meu desejo profissional — despenquei, sem paraquedas, no reino das palavras.
Isso significa dizer que minha vida só faz sentido se estou envolvido com os livros que leio, com os que escrevo e com os encontros que essas atividades me permitem ter com crianças, pais e profissionais da educação.
Há muito aprendi: ouvir o outro é um gesto de amor. Claro que não pretendo ensinar nada a ninguém — apenas gosto de trocar figurinhas sobre as delícias e as agruras da minha profissão.
Cresci numa casa pobre, mas com um quintal riquíssimo, na Vila Yara dos anos 1960, em Osasco-SP. Desde pequeno, aprendi a conviver com pessoas diferentes, de todos os jeitos. E com elas me humanizei.
Em casa, a gente não tinha livros. Mas, como eu disse, o quintal era uma riqueza só.
Na minha cabeça de menino, tudo era jardim, forradinho de crianças festivas. As rodas eram mediadas pelo Márcio, um dos filhos da Dona Bilina.
E a gente cantava de mãos dadas, olhos brilhando e risos largos.
Foi nessas interações que o menino poeta que morava dentro de mim teve suas primeiras lições de leveza.
Eu era a criança mais rica do mundo — e ainda voava, de mãos dadas e pés na imaginação.
Antes de aprender qualquer coisa, brinquei muito.
Assim como falou Zaratustra, no clássico livro de Nietzsche: “Só consigo acreditar num Deus que saiba dançar.”
Logo descobri que a sabedoria, mora no esquecimento.
E ainda segundo o mestre alemão:
“É preciso usar trovões e fogos de artifício celestes para falar com sentidos frouxos e dormentes. Mas a voz da beleza fala baixo: ela se insinua apenas nas almas mais despertas.”
Sentado no telhado de casa eu ouvia a voz da beleza, seguia passarinhos festivos, maritacas em escarcéu, fitava o céu se colorindo de carmim. Em mim, tudo podia
— tudo voava dos meus olhos como se eu tivesse pássaros no olhar.
Vai ver… eu tinha mesmo.
Naquele tempo, eu tinha todo o tempo do mundo. Eu sabia — e não sabia — que era feliz.
Enquanto rumino essas ideias aqui, eis que reencontro aquele menininho, sem eira nem beira, que ainda mora dentro de mim. E juntos montamos num cavalo alado. Sem relógio, sem destino, sem pressa.
Partimos pelas trilhas do vento, colecionando céu nos bolsos e sorrisos no caminho. Não sabemos quando — ou se — voltaremos.
Mas seguimos. Porque há viagens que não pedem chegada, apenas coragem para continuar sonhando.
Escrito por Paulo Netho exlusivamente para este blog.
(Foto tirada no Bazar Nossa Nossa em 2018).